[Review] Afterparty

Encher a cara e afogar as mágoas ao lado de amigos é algo presente na sociedade há décadas, uma necessidade que muitos conseguem se relacionar à primeira vista. O estúdio Night School, desenvolvedor do excelente Oxenfree, decidiu pegar essa ideia e criar uma história mórbida sobre amizades, perspectivas, bebidas alcoólicas e inferno. Isso é o que Afterparty tenta oferecer ao jogador, e felizmente consegue alcançar.

Por ter um gigantesco foco em narrativa, é importante ressaltar um pouco de sua história. O game apresenta os amigos de longa data, Milo e Lola, logo após suas mortes. Por algum motivo, ambos foram jogados no Inferno, mas têm certeza de que não deveriam estar lá. É claro que querem retornar à suas vidas, mas não sabem bem como fazê-lo. É aí que Milo e Lola conhecem personagens coadjuvantes que os direcionam para a única saída: se derrotarem o Diabo/Satã/Lúcifer em uma disputa de bebida poderão deixar o inferno.

Essa premissa serve tanto como o ponto de partida da história quanto o calcanhar de aquiles dos personagens. Tudo começa como uma brincadeira de encher a cara, mas logo passa por momentos muito mais sérios que mesclam temas como traição, dependência, suporte dos mais próximos. Essas temáticas poderiam dar muito errado caso não houvessem personagens interessantes para garantir diálogos sensíveis e sensatos durante as cerca de cinco horas de jogatina. Por exemplo, a taxista Sam possui várias camadas de personalidade e um desenvolvimento bem competente, além de brincar com a quarta barreira o tempo todo. Outro excelente exemplo é o próprio Diabo que mostra-se muito mais do que o imperador de todo o mal.

O Inferno em si é, também, um ótimo personagem de Afterparty. Ele basicamente se assemelha a qualquer metrópole após a meia-noite. Há pessoas e demônios caminhando por todos os lados, conversas sendo feitas que podem ou não impactar a narrativa principal, bares aos montes servindo bebidas gratuitas, seres postando na Bicker, uma rede social do Inferno que faz uma paródia com o Twitter, e muito mais. Há muita beleza aqui, mas acredito que poderia ter sido mais bem explorada pelos desenvolvedores se oferecessem uma maior liberdade ao jogador.

A verdade é que Afterparty é um pouco mais vazio do que teria o direito de ser. Quando digo “vazio”, me refiro à falta de opções de jogabilidade. Além de caminhar (e muito), encher a cara nos bares com as mais variadas bebidas, brincar de Beer Pong, dançar e interagir, não há muito o que explorar no game. Você tem o seu objetivo e o segue até surgir o próximo. Entendo perfeitamente que este é o objetivo de um game tão focado em narrativa, mas adoraria ter mais motivos para conhecer outros lugares e outras pessoas.

Outra coisa que desgostei foi a queda de frames que aconteceu muitas vezes durante a jogatina, de repente tudo ficava lento e quebradiço. Esse tipo de situação me incomoda muito, principalmente por me tirar a imersão quase que instantaneamente sempre que ocorria. Além disso, senti falta de uma trilha sonora mais presente. Após terminar o game, não consegui me lembrar de nenhuma faixa que curti, a sensação de que era apenas um som ambiente foi desconcertante.

Mesmo com alguns defeitos, há tanta qualidade em Afterparty que pude ignorar o que me incomodava. A dublagem é digna dos melhores desenhos por aí, os protagonistas são cheios de defeitos e, sendo assim, extremamente fáceis de se conectar. As decisões que tomamos não apenas o decorrer da história, mas também são explicadas entre os atos, algo como uma revisão escolar agradável. Ao terminar a aventura, a vontade de iniciar uma nova campanha é grande apenas para vermos o que pode acontecer com decisões diferentes. Isso é algo planejado pelo Night School Studio e torço para que continuem com essa pegada.

Afterparty é um ótimo game para quem curte uma boa história, seu ritmo pode não ser o dos melhores, mas seus personagens são tão genuínos que a sensação pós-créditos é que vamos sentir falta de cada um.

Nota final: 08/10