[Review] Disco Elysium

A partir de uma experiência única e pessoal, Disco Elysium é um daqueles jogos especiais, que ficam guardados na memória e no coração de quem joga – seja pela arte excepcional, o roteiro extremamente bem escrito, os personagens memoráveis ou a trilha sonora impecável.

Um clima desolado e uma cidade sem moral

Disco Elysium é um RPG isométrico com mecânicas de “point-and-click” em um mundo aberto que não está disposto a tornar as situações fáceis ou simples para quem quer resolver os problemas de uma cidade viciada. Após acordar sem memórias por conta de uma intensa bebedeira, o jogador encarna um detetive que pouco se conhece, mas tem a obrigação – tanto profissional quanto pessoal – de tentar solucionar problemas de uma cidade isolada que o odeia.

Um corpo é encontrado em praça pública, enforcado, morto há dias, e uma ligação misteriosa trás a detestada polícia para tentar resolver o crime. O jogador e seu parceiro, Kim Kitsuragi, não são nem um pouco bem-vindos na cidade de Revachol, que não tem hospitalidade como característica definidora.

É dado ao jogador a liberdade de escolher como seu personagem será. São, no total, 24 linhas de habilidades que dão ao protagonista um senso de especificidade impressionante: nenhum jogo é o mesmo. As habilidades são divididas em quatro categorias principais: Intelecto, Psique, Físico e Motora – que definem como todas as conversas e relacionamentos irão interagir com o mundo e com o detetive.

Disco Elysium não é um jogo de ação, tendo em vista que o combate está, na maior parte, ausente da jogatina. É uma experiência principalmente de leitura, interpretação e sorte. Dependendo das suas habilidades, o player pode jogar dados específicos que podem levar interações para lugares distintos e, inclusive, modificar o rumo e o tempo da história. O game tem um relógio interno, que define momentos específicos em que certos eventos, lugares, lojas ou até mesmo personagens são alcançáveis.

Já que boa parte das opções disponíveis para o jogador dependem, de certa forma, das habilidades que este tenha em seu arsenal, o título, de forma muito inteligente, implementa uma série de sistemas que podem aumentar (ou diminuir) algumas das habilidades disponíveis para o protagonista. Além de níveis e pontos que podem ser gastos para adaptar o personagem ao mundo a sua volta, há também equipamentos que podem ser colecionados e equipados para aumentar status específicos e drogas que aumentam algumas categorias, mas abaixam os pontos de vida ou de moral. Em regra, é um sistema astuto, que aplica muito bem situações de risco e recompensa dependendo da forma na qual o jogador quer encarar a gelada cidade de Revachol.

Ainda, há o “Thought Cabinet”, uma espécie de inventário de pensamentos que podem ser adquiridos a partir de ideias que surgem na cabeça deturpada do detetive ou em interações muito específicas com as pessoas do triste local. A partir destes pensamentos, o jogador pode internalizá-los, e, depois de um tempo de ativação, receber qualidades e bônus únicos que tornam a experiência ainda mais íntima e pessoal. Não é exagero dizer que uma jogatina sempre será diferente da outra em Disco Elysium, e este charme não é comum nos RPGs digitais, por mais que estejam sempre presente nas aventuras de papel e caneta do mundo dos RPGs físicos.

Um dos maiores acertos da experiência inteira é, justamente, essa característica única que a história apresenta. Comecei a jogar junto com dois amigos que tiveram escolhas e rotas diferentes das minhas. Há elementos nas experiências deles que eu não faço ideia como se consegue e vice-versa. A vontade de começar um novo save em seguida, com habilidades diferentes e falando com pessoas diferentes, é real, mesmo em um título de aproximadamente trinta horas.

Os limites da razão

Há poucos jogos que estão dispostos a entregar para o público uma história complexa e cheia de camadas íntimas sem serem extremamente convolutos e de difícil acesso. Disco Elysium definitivamente não é “complicado” de acompanhar ou de saber para onde ir. Com mecânicas acessíveis e um mundo aberto intrigante, que vai se expandindo com o passar dos dias na história, o game consegue levar o jogador para onde ele deve ir e tentar solucionar problemas de maneiras diversas.

Isso não significa, porém, que ele não trás complexidade. Muito pelo contrário. Saiba que no momento em que se iniciar a aventura, se prepare para personagens e dramas especiais, em uma narrativa necessariamente política, que trás paralelos reais e brutais sobre nossa realidade, comentários agudos sobre classe, pobreza, raça, corrupção e conhecimento próprio. Mais de uma vez jogando me peguei indagando o que estava fazendo e com quem estava falando, questionando minha ética e o que eu, como pessoa, deveria fazer.

Os limites do pensamento são explorados em um jogo que não dá trégua para, às vezes, uma rolagem de dados erradas ou uma decisão importuna. E esse senso eventual de falta de conhecimento do que está por vir é o que dá ao diálogo absurdamente bem escrito mais carinho e personalidade. É na cidade de Revachol onde a narrativa começa, mas o mundo existe desde antes, e cabe ao interesse do jogador acompanhar aquilo que se esconde por trás de um clima gelado e úmido em uma cidade que tenta se reconstruir depois de uma revolução fracassada.

O assustador de tudo isso é que além de muito bem escrito e ambientado, Disco Elysium é igualmente divertido de se jogar e acompanhar. Não é dizer pouco, porque afinal estamos tratando de um título que praticamente se segura em caixas e caixas de texto sem parar. Não há dublagem de absolutamente todo o texto, mas quase todos os personagens se comunicam em algum momento, dando ao jogador noções de personalidade que definem todos da ilha.

Trabalhar como um detetive não é fácil, principalmente em uma cidade que te odeia e sem memórias do que você fez no dia anterior. Alguém te conhece? Como foi ontem? Será que eu pisei na bola com alguém? Ah, a amnésia da bebedeira! A situação da qual o protagonista passa faz o jogador ter um foco muito maior no caso e na solução deste, principalmente quando os suspeitos começam a aparecer e, a partir daí, seu passado fica mais delineado.

Ainda, o jogo não se segura ao trazer questões éticas e socioeconômicas para o contexto do game – que são apresentadas de maneiras brutais e secas, dando ao jogador uma sensação misturada de urgência e claustrofobia quando as conversas se apertam. Exemplo disso são os momentos aonde você precisa passar por certos personagens para chegar em lugares específicos, mas uma pisada na bola pode atrapalhar todo o seu progresso e te forçar a repensar a forma na como você interage com grupos espalhados pela localidade.

Apesar de tudo, um jogo de videogame

Disco Elysium é, no final do dia, um jogo de videogame que une o RPG e o storytelling em meios digitais que dão liberdades e expressões únicas, raras em títulos semelhantes. Porém, o mesmo não escapa de algumas infelicidades.

Encontrei aproximadamente cinco bugs que me forçaram retomar meu save para algumas horas atrás. Houveram situações aonde as caixas de diálogo simplesmente travavam meu personagem e seu devido avanço, sem dizer duas vezes aonde a função de auto-save corrompeu meu jogo. O que aprendi, depois de um tempo, é que tenho que salvar constantemente para não ter problemas que possam impedir meu progresso.

Além disso, particularmente, não gostei muito da mecânica de dinheiro. É necessário ao jogador o acúmulo de uma certa quantidade de grana diária – pelo menos até o terceiro dia – para conseguir seguir com a progressão do caso, mas não é muito claro o que acontece ou como acontece caso você não consiga isso. Depois do meu terceiro dia, estes empecilhos simplesmente sumiram, e me fizeram questionar o porque de ter, afinal, tal mecânica tão punitiva.

As outras críticas que penso são, sim, um pouco fora do controle de uma desenvolvedora indie, porém o jogo é praticamente exclusivo para quem tem um bom domínio do inglês. Não há opções de traduções nos diálogos, e tal realidade pode ser, sim, alienante para alguém que não conheça a língua. Precisamos apontar realidades como estas quando analisamos a qualidade de um produto, pois, querendo ou não, a experiência se limita somente ao jogador que conhece a língua estrangeira.

Apesar dos bugs mencionados, o jogo é extremamente bem construído, roda bem em qualquer máquina, tendo em vista que, no momento, só está disponível no computador. Disco Elysium é muito precisamente cobrado no valor médio de R$70,00. Quero deixar claro que é uma experiência independente, com um fator replay altíssimo e tempo de conclusão de aproximadamente trinta horas. Vale muito, muito a pena.

Veredito

Disco Elysium é excepcional, impressionante e de tirar o ar. É um daqueles jogos que você abre, pensa que vai jogar só meia hora, olha o relógio, são quatro da manhã e sente uma mistura de arrependimento e felicidade. É imersivo, envolvente e pontual. Há, sim, contrapontos, mas mínimos, que diminuem um pouquinho a experiência, mas não a torna menos essencial.

Se você gosta de uma história bem escrita e de personagens memoráveis, Disco Elysium é pra você. Na verdade, o game é para todo mundo: é um jogo quase que perfeito e o melhor RPG de 2019.

Nota Final: 9.5/10

Disco Elysium está disponível para computador tanto na GOG quanto na Steam, e sairá para consoles ainda em 2020.