[REVIEW] Dandara: Trials of Fear Edition

Quem melhor para salvar um mundo em colapso que uma heroína da história do Brasil Colonial? Dandara, a protagonista do metroidvania do estúdio mineiro Long Hat House (confira a nossa entrevista com eles), precisa saltar pelas paredes de Sal e restaurar a ordem diante da opressão de Eldar e seu exército. Dois anos após sua aventura ser lançada para diversas plataformas, o DLC Trials of Fear trouxe novos desafios para a guerreira neste universo 2D.

Os cidadãos de Sal viviam livres antes da opressão eldariana, que corrompeu seu mundo e os obrigou a se esconder em suas casas aguardando alguém que fosse poderoso o suficiente para enfrentar tantos perigos, lembrando a obra “A Revolução dos Bichos” (1945), de George Orwell. Cumprindo o propósito de seu nascimento, Dandara precisa enfrentar uma série de monstros e chefões em uma exploração não-linear de seu mundo, onde o conceito de gravidade não existe e a movimentação é completamente baseada em pulos nas paredes, chão e teto em mapas giratórios, inimigos imprevisíveis e, claro, muitas referências à cultura brasileira.

A própria heroína, obviamente, carrega o nome de Dandara dos Palmares, guerreira negra que lutou em defesa do Quilombo dos Palmares, alvo de muitos ataques na era colonial por ser símbolo de resistência à escravatura no país. Mesmo o mais distraído dos jogadores conseguirá reconhecer logo no início do jogo a representação do Abaporu, uma das obras mais famosas da artista Tarsila do Amaral, mas nem tudo é escancarado. Em meio ao caos, vale prestar atenção ao cenário e aprecie como até a sinalização de trânsito brasileira se mostra presente nos detalhes, despertando curiosidade inclusive dos estrangeiros de conhecer um pouco mais de nossa cultura.

Já no primeiro trecho de gameplay é possível entender porque Dandara fez tanto sucesso mundo afora entre fãs do gênero: os comandos simples e a arte impecável se misturam a um bom nível de dificuldade, uma reclamação recorrente em tantos jogos nos últimos anos. É exigido do jogador reflexos e tomada de decisão rápida já que a maior parte dos desafios não é isolada de outros, principalmente nas batalhas contra os chefões, onde em geral mais de uma ameaça estará de olho na heroína.

Lançado em 2018, o jogo recebeu em março uma expansão gratuita que foi um verdadeiro presente àqueles que apoiaram o projeto nos últimos anos, mas também vem com objetivo de chamar atenção daqueles que não conheciam a aventura ou não se interessaram antes. Trials of Fear trouxe muito conteúdo a Sal: são três novas áreas inéditas, poderes para Dandara, uma nova habilidade, inimigos incluindo um novo chefão, 16 novas músicas e, principalmente, um novo final secreto.

Muitas coisas do novo conteúdo já faziam parte dos planos originais do game, mas o feedback da comunidade foi fundamental para melhorias gerais também na jogabilidade. Duas das grandes mudanças no jogo são os modificadores de dificuldade, que tanto tornam o jogo mais fácil ao acrescentar mais checkpoints, energia ilimitada e a possibilidade de reviver no mesmo local onde morreu, ou ainda mais desafiador: ao terminar o jogo a primeira vez, é possível iniciá-lo novamente com modificadores como tomar o dobro de dano dos inimigos, morte permanente e inimigos vingativos.

Quantos jogos brasileiros você aproveitou nos últimos anos? Se você é daqueles que pensa que os jogos nacionais são sempre simples demais ou que não apresentam dificuldade, com certeza não conhece Dandara – mas deveria. A delicadeza impressionante no visual, nos diálogos e história combinada com desafios frenéticos torna a experiência única – não à toa foi indicado e vencedor de diversos prêmios. O jogo original e sua expansão estão disponíveis para Nintendo Switch, Playstation 4, Xbox One, Steam, iOS e Android.

Nota Final: 9.0/10

*Análise feita com código para o Nintendo Switch cedido pela distribuidora