[REVIEW] FLATLAND Vol. 1

Com inspirações claras em clássicos modernos como Celeste, FLATLAND Vol. 1 é o novo jogo do estúdio Minimol Games – e o primeiro plataforma da equipe. De suar as mãos, o título não pode ser subestimado.

Menos morangos, mais geometria

FLATLAND Vol. 1 é direto ao ponto: tente, morra, repita, aprenda e ganhe . Essa filosofia é a força motriz do jogo. Tenho que ser honesto aqui: quando recebi a proposta de fazer a resenha deste game, pensei “ah, parece um indie breve, acho que será tranquilo terminá-lo”.

Engano de principiante. A viagem vaporwave é acompanhada de precisa e quase cirúrgica gameplay, que não deixa de lado a proposta frenética e sequencial do game. O jogo se leva bem a sério, e não subestima o jogador. Não há muitos textos ou explicações do que cada nova mecânica implica com o decorrer da jogatina, e isso é bom: incentiva a criatividade e a curiosidade.

É inegável a maior inspiração: Celeste, o fantástico clássico moderno indie que ganhou a atenção do público e da mídia ao ser anunciado como Jogo do Ano na nem tão confiável The Game Awards ao lado de gigantes AAA como Red Dead Redemption 2 e God of War.

Isso significa: uma progressão semi-linear, com muitas salas “secretas” e opcionais com colecionáveis, novas mecânicas que aparecem ao decorrer da fase, sistemas precisos de pulo e wall-jumps e por aí vai. O jogo se diferencia, sim, pela quantidade de inimigos em tela e o comportamento hostil de todos os oponentes em relação ao nosso quadrado protagonista; tornando o jogo uma aventura de plataforma rápida e frenética, com bastante repetição para chegar na perfeição e passar para a próxima tela.

Há, também, uma certa inspiração do clássico cult VVVVVV, com espinhos malignamente posicionados que forçam a progressão do player para caminhos específicos – mas não trava a exploração necessariamente à eles, entregando sempre mais de uma forma para se resolver uma sala.

Os lados de um quadrado

FLATLAND Vol. 1 é um jogo que, ao mesmo tempo em que mecanicamente apresenta constante variedade e novidade para o jogador, seja com inimigos novos, plataformas novas e formatos diferentes de progressão; falha um pouco nos cenários e na indicação visual da experiência.

O estilo vaporwave é constante do início ao fim, e pode, sim, dar a sensação de que pouco progresso está sendo feito: às vezes, as cores mudam, mas mesmo assim não é tão recompensador chegar em um ambiente novo. Ainda, por mais que os outros polígonos rivais sejam sempre adicionados ao decorrer da experiência, criando uma sensação de surpresa, há pouca interação deles com o ambiente. Uma das características que leva um jogo de plataforma à um patamar acima da média é quando o ambiente orna muito bem com o desafio – e FLATLAND Vol. 1 não entrega essa sensação.

Ainda, o jogo de vez em quando falha na indicação do que é ou não é seu inimigo, devido a, sim, uma má utilização de cores. No início, você encontra plataformas brancas que servem para levar nosso simpático quadrado de ponto A à ponto B. Eventualmente, se encontra outras figuras brancas que faz o jogador pensar que, tal qual a plataforma, não serão inimigas: errado. São sim.

Inconsistências como esta não são os únicos problemas da experiência de plataforma que o estúdio preparou. Há, durante a jogatina, diversos “pulos em falso”: você é obrigado a pular para uma nova plataforma mas o jogador deve tentar sem fazer ideia de onde ela esteja. Situação clássica de jogos antigos da década de 90 e final dos 80, são sinais de um design de nível falho, que não recompensa coragem, mas sim desvirtua a exploração e dá uma sensação de frustração. Um bom design de nível pode até ter pulos em falso – porém, o cenário e a estrutura do que o jogador vê deve indicar ou propor um caminho, mesmo onde não se saiba qual é o pouso.

Momentos como estes mencionados – com as cores e os pulos em falso – não são constantes na experiência, porém. Acontecem em alguns níveis e não são uma característica definidora do jogo. É importante notar, sim, que eles tornam a experiência de FLATLAND Vol. 1 um pouco mais frustrante do que deveria, mas não apagam ou cancelam o jogo que ainda tem precisão e risco-recompensa como características chave.

A movimentação do jogo, entretanto, é excelente: com situações mais pesadas, o quadradinho pode se agarrar nas paredes se arrastando lentamente pra baixo, pode performar pulos diversos – sendo que há diferenciação na velocidade que se pressiona o botão no controle, com pulo curto e longo – e uma forma de acelerar o personagem ou intensificar pulos e distâncias percorridas. é amplo o leque de opções para movimentar seu personagem, e isso acrescenta no fato de se existir mais de uma forma para chegar no objetivo do jogo. A única coisa que senti falta aqui foi um “fast fall”, poder apertar para baixo enquanto estou no ar para acelerar a queda do personagem. Uma mecânica como essa traria ainda mais precisão para o jogo e tornaria algumas situações menos arbitrárias.

Estética! Estética! Estética!

Com a entrada no mainstream de temas vaporwave e sua estética, é inegável o impacto visual e sonoro nas mídias interativas como videogame e FLATLAND Vol. 2 abraça com vontade e eventual sucesso o estilo musical que deu origem à onda na internet.

A trilha sonora merece sim uma sessão a parte: as músicas são divertidas e acompanham bem as fases, com composições marcantes e rítmicas que acrescentam à jogabilidade do jogo. São momentos frenéticos e outros também mais tranquilos, que acompanham bem os brilhos neon das estruturas.

A mixagem de som também é ótima: as explosões são recompensadoras e os sons são, na maior parte das vezes, únicos. Pelo fato de ter sempre bastante inimigo na tela – e alguns deles perseguirem o jogador – escutar o som de ativação de um destes oponentes já é o bastante para conseguir se posicionar, sem precisar perder tempo com a identificação em tela de onde vem a ameaça. Este é um sinal de um jogo que sabe o que está fazendo no quesito de som, e não pode passar batido o elogio neste aspecto.

Veredito

Com uma movimentação precisa, ritmo frenético, trilha e mixagem de som acima da média; FLATLAND Vol. 1 é uma experiência de suar as mãos para aqueles que são fanáticos por jogos de plataforma que recompensam bem o jogador por sua criatividade. Há, sim, pisadas na bola: os pulos em falso, a má utilização de cores e a pouca variedade visual de cenários. Porém, o jogo consegue, sim, entregar sem comprometer muito daquilo que mais se propõe: tente, morra, repita, aprenda e ganhe.

Nota final: 7.5

O jogo, no momento, está disponível na STEAM por R$11,00 e no Nintendo Eshop do Switch – plataforma desta resenha – por US$6,29. O preço é justo e a experiência é mais longa do que o jogador pode esperar, então vale muito a pena. As imagens do jogo nesta resenha foram retiradas do site oficial da desenvolvedora que nos cedeu uma chave para o review.