[REVIEW] DIVINITY: ORIGINAL SIN II

É um dia frio, a quarentena de 2020 segue intensa e o distanciamento social penetra cada dia mais nosso dia a dia. É difícil encontrar os amigos e conversar horas a fio. O videogame é um porto seguro que tem, como farol, jogos como Divinity: Original Sin II. Se juntar com o pessoal, buscar um tira-gosto e esquecer de todos os problemas por horas. Divinity não foi só uma das melhores experiências que já tive com videogame – mas, também, com amigos.

Das profundezas à ascensão

Rivellon não é para iniciantes. Seja das praias paradisíacas de Reaper’s Coast, que guardam tenebrosas locações como a prisão para feiticeiros em que a trama se inicia, até as populadas cidades como Arx em que uma aventura de mais de 70 horas vai começar.

Depois de um animador e amplo criador de personagens, que oferece diversas raças e classes, além de opções já pré-criados pelo jogo, caso o jogador queira; Divinity é uma aventura do início ao fim. Começamos em uma prisão, pois, afinal, somos todos Feiticeiros, e, aparentemente, nosso exercício de poder atrai criaturas tenebrosas, Voidwokens, que destroem tudo e todos que os encontrarem.

Dividido em quatro atos, o mundo de Rivellon é amplo e, sobretudo, misterioso. Seja pelas cavernas secretas ou os caminhos esguios, a sensação é de que nunca se é possível ver absolutamente tudo de cada mapa. É com o senso de aventura e progressão que o jogo encanta – quase que te desafia para ir atrás de caminhos mais fora da caixa.

Com uma dublagem fenomenal, a quantidade absurda de conteúdo chega a ser sufocante. É comum ficar perdido de cara, não saber para onde ir ou o que fazer. É como naquelas aventuras de papel-e-caneta, em que quando chegamos em um lugar novo, devemos falar com todo mundo para se ter uma ideia do que fazer. A coisa é que nem todos vão querer falar com você. Seja nas brigas acidentais, nos testes de persuasão ou percebendo nuances do ambiente: a aventura está rolando, e o mundo é tão grande que te desafia.

Sem charme, porém, nada é possível. Nesse aspecto, Divinity: Original Sin II é um verdadeiro mestre. Tudo parece vivo. Seja do garoto tentando vender jornais que incessantemente grita as chamadas do dia ou aquele trabalhador que só tem um pouco de dinheiro e um caneco vazio de cerveja: a ambientação, aqui, é tudo.

E como isso tudo é impecável, meu Deus! Abrir o mapa para decidir aonde ir e procurar a pessoa certa no lugar certo que pode te dar aquela informação necessária… Tudo é tão meticulosamente criado que te faz ter a sensação de “puxa, mas é obvio!”.

Por exemplo, vamos supor que você é um Elfo. Elfos, ao comerem a carne de outros animais, conseguem experienciar as memórias da morte deles. Tem um boato esquisito pela cidade de que um pessoal vem morrendo e ninguém sabe o motivo, e você decide ajudar. Horas depois, após procurar muito, você entra em um boteco, vai comer a sopa do dia e a atendente decide não te dar o mesmo que os outros comem, mas um especial, só pra elfos. De cara, é esquisito, mas… por quê? Puxa, é óbvio! Deve ter alguma coisa naquele ensopado que todo mundo está comendo. E se você tentar comer um deles? Será que vai ter a memória de alguém que morreu? Será que o corpo de alguém está no ensopado? E, mais importante, como você vai conseguir pegar a comida?

E são de momentos assim, com uma criação de mundo fenomenal, que a narrativa e os encontros vão prosseguindo. E se você tentasse buscar algum espírito para bater um papo? E se você tentasse fingir que é um convidado de um casamento só para conseguir informações dos cônjuges?

A parte mais impressionante é que, para a maior parte das dúvidas, se tem uma ou mais respostas, que podem ser alcançadas de diversas formas – cabe ao jogador o que e como fazer. A você, muitas promessas foram feitas, e uma ascensão é iminente, mas como vai ser a sua história depende de quem está jogando.

Uma Experiência Social

Divinity: Original Sin II é um RPG por turnos que pode ser jogado sozinho ou com até quatro pessoas, que podem tanto criar um personagem original quanto escolher um daqueles com histórias pré-prontas. E a forma que o jogo é construído traz total liberdade para os jogadores. Cada um pode estar em um lugar diferente ao mesmo tempo, tentando descobrir pistas de como prosseguir ou até mesmo comprando itens, testando habilidades novas, modificando status e por aí vai.

É um jogo com começo, meio e fim; que conta com um sistema de armadura, status e habilidades amplo e complexo, mas, também, fácil de entender. Alguém do seu grupo pode conseguir falar com animais para resolver problemas enquanto o outro pode ter uma lábia altíssima para conseguir conversar melhor – o limite é como que o jogador quer jogar. E não há penalidade alguma caso você se canse do seu personagem durante a aventura: você pode trocar a alocação de pontos a qualquer momento durante quase toda a campanha.

Eu joguei este jogo com outros dois amigos (um deles controlava dois personagens), e foram quase dois meses, jogando em 31 sessões diferentes, nas quais criamos histórias e emoções juntos. Nas intensas batalhas ou na procura de para onde ir: Divinity: Original Sin II é um jogo que, quando jogado com outros, é muito mais único e divertido. Então nada mais justo que ouvir da opinião deles, também:

Com vocês, Gui “Dramah”, um homem lagarto que consegue apagar os inimigos rapidamente com sua espada de duas mãos:

Jogar Divinity Original Sin II com amigos foi uma das experiências mais legais que eu já tive com jogos. Quando me chamaram para jogar, eu não sabia do que se tratava, mas como me disseram que parecia bastante com jogar RPG de mesa eu resolvi dar uma chance. Acabou sendo MUITO melhor do que eu imaginava!

A quantidade de possibilidades, das interações de magias às formas como os cenários se transformam ao longo dos combates, pra mim, foram os pontos altos da experiência em equipe. Apesar de alguns problemas com a interface, todas as risadas, os planejamentos de cada combate, as conversas sobre o que faríamos e as tomadas de decisão em equipe tornaram a experiência inesquecível.

Acho que vale mencionar também que no meio da história eu mudei completamente a build do meu personagem sem ser gravemente punido por isso. Eles mandaram muito bem em dar essa liberdade para experimentar outros caminhos a praticamente qualquer hora.

Resumindo, foi legal DEMAIS! Super recomendo e nos vemos no Baldur’s gate 3 {:

“Dramah”, um reptiliano da pesada.

E, também, Willy “Morwen”, uma elfa assassina que é apaixonada por transformar seus inimigos em galinha e depois estourar os tendões deles:

Depois de 2 meses e de mais de 60h jogando Divinity com o Alexandre e o Gui, minha impressão é que esse jogo foi feito para ser jogado com outras pessoas. Apesar da maioria dos RPGs ser uma experiência basicamente single-player, uma das maiores referências do gênero continua sendo as aventuras de papel e caneta, e nelas, o aspecto social de se ter uma “party” é fundamental. Um grupo de amigos para interpretar e mergulhar em mundos desconhecidos, para discutir, tomar decisões e se aventurar. Nisso, esse jogo é impecável.

As melhores partes de Divinity tem como base o compartilhamento de experiências, e isso faz com que as poucas falhas do game percam importância.  O que fica é a sensação de ter passado inúmeras horas não apenas jogando, mas sim criando momentos únicos com outras pessoas, algo que nesses tempos faz muita falta e que nenhum RPG jogado sozinho poderia fazer.

“Morwen”, uma elfa sagaz.

Um jogo de camadas

Além da exploração, previamente mencionada, Divinity: Original Sin II tem um sistema de batalha que usa como força-motriz algumas interações que os elementos têm entre si. Vamos imaginar que eu, um mago de fogo, jogo uma chuva de meteoros intensa que coloca todo o campo de batalha em chamas. Caso alguém queira, utilizando uma habilidade especifica, pode-se apagar o fogo como com uma intensa tempestade, que fará subir uma grossa névoa que tornará mais difícil os acertos por essa região, nos protegendo, talvez, de arqueiros inimigos maliciosamente posicionados.

Está na forma em que os elementos se comunicam a genialidade das batalhas por turno do jogo – que contam com uma ampla quantidade de magias de diversos elementos, bombas, granadas, poções e feitiços. É com a conversa impecável entre as facetas do jogo em que a luta se torna mais e mais genial.

Há, porém, muitas confusões visuais que de vez em quando vão fazer o jogador fazer besteira sem querer. Seja por não notar um detalhe específico do inimigo ou uma estrutura esguia na sua frente, é comum, de vez em quando, errar por acidente a sua ação. E é sim nestes momentos em que a magia quebra, um pouco, mas não demora para tudo voltar a ser divertido.

Tropeços também são cometidos no que tange a interface de usuário. Os menus são, nos melhores casos, um pouco confusos e, nos piores, um caos total. A forma em que as missões são guardadas, por exemplo, é uma tontura que fica de lá para cá, e demora um tempo para pegar o jeito – e não porque os menus desafiam o jogador, mas porque são, sim, mal diagramados. Os itens consumíveis adquiridos entram direto na barra de ação e às vezes, sem nem notar, sua barra vai estar toda cheia de coisas que você talvez nem possa usar. É por estes problemas de interface que a experiência pode ser um pouco intimidadora para o novato e pode empurrar o jogo para mais grupos de nicho.

Ainda, o sistema de drop é, às vezes, frustrante. Não são drops únicos e, por isso, é comum de vez em quando terminar uma missão que não vai te presentear com nenhum item bom para você ou seus amigos. Ainda, há, sim, um problema no balanceamento do jogo. Desculpe os fãs “super hardcore” do game: mas algumas lutas, de vez em quando, são muito fáceis e outras muito difíceis e até mesmo irritantes e injustas.

É importante mencionar que existem quatro dificuldades no jogo (fácil, médio, normal e difícil). Jogamos na normal, porém, esta não é uma crítica à dificuldade proposta pelo game e sim ao balanceamento de alguns encontros.

Também é importante mencionar que, mesmo tendo uma ambientação fenomenal e uma estrutura narrativa empolgante, sempre mudando os mapas, a história se perde, um pouco, em sua grandiosidade e por vezes não parece saber muito para onde quer ir – ou mesmo se quer ir para algum lugar. Diria que há, em Divinity: Original Sin II, um problema de ritmo. Quando está bom, está incrível, mas quando está ruim, é cheio de exposição chata e longa demais. O jogo poderia aprender mais com o ditado “mostre os eventos, não fique descrevendo-os em caixas e caixas de diálogo sem fim” (“Show, don’t tell”).

Veredito

Divinity Original Sin II é um jogo que me trouxe, no meio de um ano de distâncias, proximidade com pessoas que eu amo. Foi uma jogatina imensa, de pouco mais de setenta horas, que tomou dois meses de um ano difícil e solitário e deu, a eles, característica, charme e diversas lembranças.

São jogos como este que te empolgam para sentar e começar algo novo com quem você está próximo. É uma aventura contagiante, que te faz querer jogar quase todo dia, seja pelo encontro com seus amigos ou pelo seu caminho da ascensão em Rivellon. É uma experiência marcante e única.

Dos problemas de interface aos tropeços no ritmo do game e alguns bugs aqui e ali são os momentos em que o jogo peca. Não há, também, opção para legendas em português, infelizmente. Mas de uma desenvolvedora independente e absurdamente promissora e um dos projetos de Kickstarter mais bem sucedidos da história, principalmente por sua qualidade, é inegável que Divinity Original Sin II é, com certeza, um jogão.

O game está disponível para:

Computador (Windows e macOS), pela GOG ou pela Steam, por R$90,00;
Nintendo Switch, por R$184,99 na loja brasileira ou US$50,00 na norte-americana;
PS4 por R$249,99 e;
Xbox One por R$209,00.

Entre o computador e o Nintendo Switch, há a possibilidade de cross-save.
Entre as plataformas, o cross-play ocorre somente entre macOS e Windows. Os consoles não podem jogar entre si nem com o computador.

Ainda, nos computadores, há a possibilidade de se jogar o jogo tanto por direct connect quanto por LAN. O jogo não tem DRM algum. O jogo é desenvolvido e publicado pela Larian Studios após uma bem sucedida campanha no Kickstarter.

Nos consoles, com exceção do Nintendo Switch, e nos computadores há a possibilidade de jogar co-op local com dois controles.