[REVIEW] Yes, Your Grace

Ao passear pelo vasto catálogo do Gamepass, sempre busco no meio dos inúmeros jogos AAA algum game indie que possa me despertar interesse, e quase lá no finalzinho do catálogo, na letra Y, encontrei o “majestoso” game de escolhas e consequências: Yes, Your Grace.

Desenvolvido por meio de uma campanha de financiamento coletivo, pelos ingleses do estúdio indie Brave at Night, e lançado em 2020 para Nintendo Switch, PC e sistemas Xbox, Yes, Your Grace é um breve, porém charmoso adventure, com um toque de gerenciamento de inventário.

O Peso da Coroa

No game, assumimos o papel de Eryk, rei de Davern, um vasto reino rodeado por montanhas e florestas, mas, apesar dessa vastidão, toda a aventura é confinada ao Castelo de Grevno, que a propósito, já viu dias melhores. Na câmara real, sentado em seu trono, Eryk decide os rumos de suas terras e povo.

Uma vez por semana, comerciantes, lordes e plebeus fazem filas aguardando uma audiência com vossa Graça, o Rei. Os pedidos são os mais diversos e vão de coisas simples como ajudar na reforma de uma igreja até escolhas mais difíceis, como julgar o destino de um desertor de guerra ou a qual mãe pertence o bebê recém-nascido.

Família Real

Apesar de ter literalmente a responsabilidade de um reino nas costas, as decisões mais difíceis ao longo da aventura dizem respeito à família de Eryk, em especial sua filha mais velha Lorsulia, que passa a ter uma relação conturbada após ser prometida em um casamento arranjado. Sem querer dar spoilers aqui, muitas das situações que acontecem no reino de Davern podem até ser consideradas clichês de histórias sobre Reis e demais contos medievais, mas o fato de estarmos na posição mais elevada da corte, de termos o peso das decisões, tornam todas essas situações “familiares” em algo completamente novo sob tal perspectiva. Além disso, os diálogos são muito bem escritos, e todos os personagens transbordam carisma, de maneira que o jogador sempre estará curioso pelo próximo capítulo da história.

PODERES ILIMITADOS! Dentro de um inventáriozinho…

Você é o Rei, sua palavra é a lei e todos obedecem sem questionar, entretanto, o reino não é feito de bons pensamentos e pó de pirlimpimpim. Para que você consiga exercer seu reinado é necessário administrar os recursos disponíveis com sabedoria, e é aí que as coisas ficam mais complicadas…

Como havia dito, uma vez por semana o Rei recebe em seu castelo seu povo, com os mais diversos pedidos, e para cada solicitação aprovada são necessários recursos representados na forma de ouro (pela letra G) e suprimentos (letra S). Para atender o pedido deve-se pagar com um dos, ou até os dois recursos ao mesmo tempo, mas se em algum momento seus recursos chegarem a zero, game over!

Então, não será incomum negar pedidos ao povo, buscando priorizar o que julga mais importante e, claro, evitar zerar os cofres. O lance é que junto aos dois recursos mencionados é adicionado um terceiro item: a satisfação do povo.

A cada pedido realizado, a satisfação aumenta, faça o oposto e a satisfação diminui. Se chegar a zero, adivinhe só, fim de jogo também. Ah, e eu mencionei que é preciso se preparar para uma guerra? E é claro, tem o casamento da filha real… e muito mais!

O Tempo a Serviço de Sua Majestade

Se o que parecia uma aventura descompromissada bancando um rei acabou parecendo um pesadelo de escolhas difíceis e gerenciamento de recursos, não se desespere! Apesar das aparências, e das decisões difíceis ao longo da jornada, Yes, Your Grace é um jogo calmo e até relaxante. Atribuo isso principalmente ao sistema de passagem de tempo: o jogo avança na história uma vez por semana, e normalmente cada semana dura poucos minutos, cinco ou seis no máximo, sendo que quem dita esse ritmo é você. Após atender ao povo na sala do trono, você pode explorar o castelo e interagir com sua família e servos, enviar mensagens de pombo-correio para outros reinos, interrogar prisioneiros na masmorra, etc…

Após fazer tudo o que julgar necessário, basta encerrar aquela semana e iniciar a próxima. Ao término, o jogo mostra um balanço do inventário e te dá a opção de gravar o progresso, dessa forma Yes, Your Grace pode ser jogado aos poucos e sem pressa, até porque a aventura é bem curtinha mesmo, então não há porque correr.

Gráficos para um Rei, controles de plebeu…

Não há muito o que se ver em Yes, Your Grace, pois o jogo praticamente se limita ao castelo de Davern, o que não significa que o que é visto não seja belo, muito pelo contrário! O estilo (já consagrado nos jogos indie) de pixel art casa perfeitamente com a obra, pois ao mesmo tempo consegue transmitir o carisma necessário para nos importarmos com aquele mundo, ao mesmo tempo que remete aos clássicos do gênero adventure, como Full Throttle ou Day of the Tentacle. Com pouco tempo de jogo, passamos a identificar cada um dos muitos personagens num piscar de olhos, e eu acho isso um êxito na direção artística, já que tudo é tão minimalista, mas mesmo assim consegue ser distinto e “vivo” o suficiente para nos importarmos com cada personagem.

Aqui vai um adendo para o áudio também: as músicas não são nada especiais, mas cumprem seu papel e não destoam do tema, e as vozes das personagens são retratadas por meio de sons, como em Banjo-Kazooie por exemplo, complementando os já elogiados diálogos do game. O mesmo, contudo, não pode ser dito dos controles: ao menos no joystick, a navegação está longe do ideal, não é terrível, mas também não contribui para elevar a experiência do título. Talvez o sistema de point and click dos adventures antigos funcionasse no passado, mas hoje em dia parecem datados, engessados, ao ponto de fazer uma simples navegação pelos aposentos do castelo uma tarefa cansativa.

Por sorte a história e todo o resto funciona muito bem! Bem o suficiente para fazer com que eu quisesse jogar até o final da aventura!

Veredicto Real

Com uma aventura curta, mas cheia de possibilidades e reviravoltas, aliado a um sistema de progressão que ajuda o jogador a apreciar o game no seu próprio ritmo, Yes, Your Grace é uma aventura mais do que recomendada para aqueles que curtem uma boa história medieval e adoram ver as consequências de suas ações no decorrer da trama.

Por ser uma jornada breve (cerca de 5 horas de jogo), tem um ótimo fator replay, já que muito pode mudar de acordo com suas decisões.

Os únicos pontos que “mancham a imagem da Coroa” são os controles engessados e a falta de uma tradução para o nosso idioma, já que o game é carregado de textos.

Se games como os da TellTale ou os adventures da Lucasarts fazem seu estilo, dê uma chance a Yes, Your Grace.