ESPECIAL: Suda51, Travis, e os Jogos indies

Suda51 e Travis Strikes Again

Lançado em janeiro de 2019, o jogo Travis Strike Again: No More Heroes, apresentava um capítulo novo para o universo que haviamos conhecido em No More Heroes 1 e 2 nascido da mente de Suda51. No qual 7 anos se passaram na história, e Travis Touchdown resolve abandonar a sua então família para ir morar isoladamente num trailer.

Uma escolha tão difícil, mas necessária. Travis (que nos jogos anteriores tinha como meta virar o assassino n°1 do mundo) estava cansado de colocar sua esposa e dois filhos em perigo com ataques surpresas de quem queria o matar. Longe da cidade de Santa Destroy e aposentado, seu divertimento agora são apenas os games. Assim, ele se torna cada vez mais um colecionador, a ponto de adquirir num leilão macabro, um videogame amaldiçoado que até então vivia de boatos entre os gamers, o lendário e sinistro console Death Drive MK-II.

Travis fica sabendo ainda que a lenda diz existirem 6 jogos criados para o aparelho, e que para quem terminar todos os jogos, poderá realizar um pedido. É nessa hora que entra o personagem Badman, que num dia pega Travis de surpresa em seu trailer em busca de vingança pela morte de sua filha (Bad Girl, em No More Heroes 1). A briga só se interrompe quando Badman nota o videogame de Travis no trailer, e se espanta ao saber que o Death Drive-MK-II era real, pois ele tinha consigo uma das seis Death Balls (o tipo de “cartucho” para o sinistro console).

Suda51 e Travis Strikes Again
Travis Strikes Again: No More Heroes (Imagem: Divulgação)

Ambos, então, se unem para reunir todas as 6 Death Balls e derrotarem todos os chefes dos 6 jogos, e assim reviverem a Bad Girl. Eles só não contavam com o fato de que o Death Drive MK-II os engoliriam e os jogariam dentro de cada jogo…

Assim é a premissa inicial de Travis Strike Again. Mas existe muito por trás de toda a criação do game.

Gameplay de Travis Strikes Again
Jogabilidade de Travis Strikes Again (Imagem: Divulgação)

No More Heroes 2 havia sido lançado em 2010, ainda para Wii. Durante esse tempo todo, Suda51 foi se encantando com o crescimento da indústria indie. Para ele criar algo mais simples, de menor orçamento, utilizando uma de suas franquias mais queridas, Suda51 queria trazer em Travis Strikes Again a prova do potencial que ele via nesses jogos.

Ele queria desde o início, que nesse jogo, Travis fosse um fã fervoroso dos indie games, afinal Travis e o próprio game designer sempre tiveram gostos parecidos.

Decidi trabalhar com desenvolvedores indies porque, além de ser um grande fã de jogos indie, acho que Travis definitivamente seria um grande fã também. Você pode vê-lo jogando Hotline Miami no trailer, e se olhar de perto você pode ver que ele está realmente muito perto de vencer o jogo. Isso é o quão fã ele é.

Suda51 procurou fazer o máximo de parcerias possíveis para trazer vários desses jogos para o universo de Travis Strike Again. Ficou muito viralizado quando ele revelou a parceria conseguida com Shovel Knight, revelada numa live de apresentação dos Nindies (programa da Nintendo focado em destacar produções indies para seu console) durante a PAX WEST 2017. Suda51 revelou que já eram 15 parcerias fechadas, e novas ainda estariam por vir.

Suda51
Suda51 em um bate-papo na Nindies (Imagem: Nintendo)

Tenho acompanhado a crescente cena indie de perto nos últimos anos, participando do Bit Summit em Kyoto e vindo para a PAX West pela primeira vez no ano passado, e pelos últimos dois anos ou mais em particular, tenho visto tantos títulos independentes quanto possível e realmente vasculhando para encontrar títulos incríveis, o que também, felizmente, não é difícil com todas as coisas legais que têm sido feita”

Sud051a reconhece que seu pequeno estúdio (contando com umas 13 pessoas na produção de Travis Strike Again, e ainda tendo de tercerizar uma parte para criações de animações) também o remete a ser um produtor fortemente ligado as produções independentes.

Eu também queria trabalhar com desenvolvedores independentes porque ainda vejo a ‘Grasshopper Manufacture’ como criadores independentes, que foi como começamos. E queria mostrar meu apoio a esses produtores e ajudar a divulgá-los, pois sinto que o que eles criam é realmente ótimo, eles merecem todo o reconhecimento que puderem obter.

Como resultado final, Travis Strike Again: No More Heroes trouxe mais de 90 games indies que apareceram, sejam de formas simples, como em camisetas para Travis e Badman utilizarem, ou mesmo em cenários. Aliás, as camisetas ajudaram no marketing de lançamento do jogo, na contagem das datas próximas do jogo sair, una nova vestimenta era sempre revelada.

Camisetas de Travis Strikes Again
Camiseta de Hollow Knight em Travis Strikes Again (Imagem: Divulgação)

Um dos personagens do jogo, um velho sábio, diz: “Jogos indies são bons. Você deveria conferir os jogos do Rasho. Lá você encontrará a verdade!”

Fazendo uma referência ao antigo produtor japonês Kōji Sumii, criador do jogo Bokosuka Wars, ainda nos anos 80.

Travis e vários personagens vivem citando referências aos games indies durante a aventura. Em uma das mais clássicas, após vencer o primeiro jogo, Travis empolgado diz num diálogo: “Aposto que a Devolver vai comprar os direitos e fazer uma continuação”.

E falando na produtora Devolver, com certeza a melhor participação fica com Hotline Miami, numa das últimas fases do jogo, o cenário é tomado por referências ao título, incluindo os diálogos dos mascarados assassinos entrando na tela.

O jogo que mais me influenciou foi o Hotline Miami. Os caras da Dennaton Games são amigos meus e são dois dos criadores de jogos que mais respeito. Desde que os conheci, comecei a me interessar profundamente por jogos independentes, e eles realmente me estimularam muito.

Hotline Miami e Suda51
Hotline Miami em Travis Strikes Again (Imagem: Divulgação)

Numa produção mais modesta, fazendo o jogo final custar metade dos U$60 das grandes produções, tudo na obra acaba se apresentando de forma mais simples ao que viamos na série No More Heroes. A começar pela visão isométrica de grande parte da gameplay, que às vezes oscila para um clássico side scrolling, embora o conceito hack n’ slash dos originais permaneça. Exigindo, assim, espaço a criatividade para entreter o jogador com recursos simples, assim como são em grandes partes dos jogos indies criados.

Fui fortemente influenciado por muitos jogos e criadores independentes. Em vez de ir para um produto realmente em grande escala, eu queria mudar para o tipo de escala e vibração de estúdio que prevalecia quando estávamos fazendo jogos durante os dias do Super Nintendo e do PlayStation original. Eu também queria tentar algo fora da série numerada “oficial”, então decidi ir com a visão de cima para baixo no estilo arcade para Travis Strikes Again.

Em 2021, vemos que o próximo jogo principal da franquia, No More Heroes 3, segue recebendo destaques nas Directs principais da Nintendo, ao lado de outros títulos AAA. Fazendo perceber que Suda51 sabe bem o que está fazendo.

Mas Travis Strike Again marcou quando um produtor de renome quis apenas abrir espaço para utilizar uma de suas franquias para trazer vida a um jogo que funcionasse como uma adição a uma série principal. Suda51 queria que relembrasse um pouco alguns outros de seus jogos no meio, e ainda se misturasse a homenagens por todo esse universo gigantesco dos jogos independentes.

Um universo que continuará sempre crescendo, formando, e inserindo novos produtores de jogos.

Quem sabe em um dia desses, não veremos Travis Touchdown novamente vestindo por aí uma camiseta de algum game indie lançado recentemente.

Se depender do Suda51, o seu maior fã, Eu não duvidaria.